O
Sermão da Montanha
O Sermão da Montanha
do Evangelho de Mateus é o texto mais importante do Novo Testamento. Aqui estão
expressos os principais conceitos do cristianismo e contém, sem dúvida, a síntese
da mensagem de Jesus. Afirmava Mahatma Gandi
que se toda a literatura ocidental se perdesse e restasse apenas o Sermão da
Montanha, nada se teria perdido.
O Sermão começa com
as Bem-aventuranças, que são a síntese dos passos da iniciação
cristã, que é o processo de evolução do espírito em sua
jornada terrena. Aqui estão descritos, de um modo impressionante e com uma
clareza cristalina, os passos que o homem deve seguir para chegar ao Reino dos
Céus.
Consiste da afirmação
do passo iniciático, seguida da afirmativa que se refere à conseqüência
desse passo. Seguem uma ordem ascendente. Os passos são citados iniciando da
condição terrena e material, que leva o espírito encarnado até sua libertação
da cadeia evolutiva deste Eon. Inicia, pois, com o homem terreno, puramente
materialista. que vive exclusivamente a matéria.
1 — Bem-aventurados
os pobres de espírito, por que deles é o Reino dos Céus.
No primeiro momento
evolutivo, do homem material, é preciso perceber que existe nele algo mais do
que a matéria que conhece. Que existe nele um espírito. Que existe um mundo
que não é matéria, que é algo que não conhece. Neste instante inicia-se
sua evolução espiritual. Passa a buscar as coisas espirituais! Torna-se um
mendigo do espírito (uma das traduções usadas para a frase).
Como não conhece
nada deste mundo novo ou do seu espírito, apercebe-se neste instante que é
um pobre de espírito. Põe o pé na Seara Evolutiva que vai trilhar neste seu
período evolutivo terreno.
Esta já é por si só
uma assertiva maravilhosa, mostrando de que modo o homem entra no caminho
evolutivo deste Eon.
Mais maravilhosa é a
afirmativa seguinte, conseqüência deste passo: "Porque dele é o Reino
dos Céus". Aqui está claro, aquele que põe o pé na seara
inevitavelmente chegará ao fim!
Quando o homem se
inicia no caminho de mendigo do espírito fatalmente chegará ao Reino. Por
bem ou por mal, aquele que iniciou a seara chegará ao fim, porque nele está
a potencialidade divina que foi acordada pela sua vontade. A realização é
inevitável, simplesmente questão de mais ou menos tempo. Esta consolação
maravilhosa que se encontra na primeira bem-aventurança, vem para nos
confortar, a nós que estamos neste caminho.
Como pode-se ver,
existe um sentido muito mais profundo em cada palavra do Evangelho de Jesus.
Basta que se tenha "olhos de ver"!
2 — Bem-aventurados
os que choram e sofrem, porque serão consolados.
Tendo colocado o pé
no caminho, o homem inicia sua espiritualização. Passa a sentir-se como um
estranho no mundo material. As coisas do mundo não lhe dão mais a mesma
satisfação e, não tendo ainda a consolação das coisas do espírito, chora
e sofre!
Neste momento o ser
em evolução encontra-se em total desespero; sente-se abandonado. Saiu de um
mundo mas não encontrou ainda outro.
Muitos de nós nos
encontramos neste estágio. Sentimos que existe um mundo maior, além do
mundo, mas não conseguimos penetrar nele. Permanecemos presos ao mundo em que
vivemos, aos seus valores. Por isto sofremos.
Mas, exatamente
devido a este sofrimento, somos impelidos a buscar o entendimento e a consolação.
Buscando, certamente encontraremos — "Busca e acharás".
A consolação está
em todo canto; basta que tenhamos "olhos de ver"
Desta forma, a
consolação está clara aqui nessas palavras do Evangelho — pelas quais já
passamos tantas vezes sem nunca termos visto a consolação que existe nelas.
Os que sofrem serão consolados!
3 — Bem-aventurados
os mansos, porque que herdarão a terra.
Esta bem-aventurança
já foi muito mal interpretada por ignorantes e interesseiros, que atribuem a
ela a afirmação de que o homem deve ser submisso à instituição religiosa,
ser manso, e que acena com a possibilidade de assim obterem ganhos materiais.
"Se aceitares as
coisas da igreja, neste mundo mesmo receberás a recompensa" – isto foi
muito usado para beneficiar aquele que "colaboravam".
Vamos à interpretação
iniciática cristã.
O homem que pôs o pé
no caminho, sentiu-se sozinho e buscou a consolação. Este homem não mais
luta com as coisas do mundo. Adquiriu a compreensão de que mundo material
nada mais é do que a manifestação de um mundo astral. Que não adianta
bater de frente com as coisas do mundo, elas têm uma Lei. Que a natureza tem
um ritmo, contra o qual não é possível lutar.
Com este entendimento
torna-se manso. Não luta contra as coisas do mundo, coloca-se na posição em
que a corrente do mundo flui. Coloca-se no "caminho perfeito".
Nesta situação, as
coisas terrenas passam a acontecer de modo a beneficiá-lo.
A natureza passa a
trabalhar para este homem manso. Ele usa suas forças para colocar-se na direção
de receber o que deseja, porque entende como a Lei se cumpre. Este homem é
manso, mas não covarde; é um grande lutador, que luta com sabedoria.
A conseqüências de
ser assim manso é herdar a terra. Os bens materiais lhe são dados em acréscimo.
É impressionante a
seqüência do passo com a conseqüência dele. Neste estágio encontram-se os
homens que sabem viver com o que possuem — podem ser ricos que usam bem sua
riqueza, e podem ser pobres que estão em harmonia com o que têm.
4 — Bem-aventurados
os que tem fome e sede de Justiça, porque encontrarão a Justiça.
O homem que herdou a
terra, que vive em paz com as coisas materiais, passa a ter uma aspiração ética
mais ampla. Já entendeu a Justiça do mundo. Procura encontrar no mundo a
presença de Deus.
Busca encontra a
Justiça em tudo o que vê: tem fome de Justiça!
Este já é um homem
superior a média, é o homem que do fundo do seu coração procura ser justo.
Nesta busca vai
encontrar a mão e Deus em tudo que ocorre no mundo. Vai entender a Lei do
Carma.
Este homem entende
que o momento que vive foi criado por ele mesmo no passado. Com este
entendimento encontra a Justiça.
No passo anterior,
conheceu a Justiça do mundo, e aprendeu como as leis da natureza fazem a sua
Justiça. Neste passo entende a Justiça de Deus, a Justiça que comanda tudo
que independe do mundo.
5 — Bem-aventurados
os misericordiosos, porque encontrarão a Misericórdia.
Neste quinto passo
iniciático, o homem inicia-se no espírito de Deus. Passa a ter a compreensão
de que existe algo além da Justiça. Que há uma força maior do que a Lei.
Que há alguma coisa que o une aos outros homens. Este algo mais além da
Justiça é a Misericórdia!
A semente dessa
Misericórdia existia em seu coração desde o início, mas o homem só tem
condição de perceber a Misericórdia depois de conhecer a Justiça.
A Misericórdia antes
da Justiça gera a desarmonia e o caos.
O sentimento de
Misericórdia, que estava escondido dentro de seu coração, manifesta-se
neste momento e o homem se torna misericordioso. Torna-se naturalmente
misericordioso, como ocorre a cada passo, confirmando a afirmação inicial de
que quem põe o pé no caminho chegará ao Reino dos Céus.
A conseqüência
deste passo é que encontrará a Misericórdia. Só sendo misericordioso é
que se pode entender a Misericórdia de Deus, pois esta não está em qualquer
lógica ou raciocínio humanos. Sendo misericordioso o homem encontrará a
Misericórdia para elevá-lo no caminho de Deus.
Não é por seus méritos
que chegou aqui e nem será por eles que seguirá adiante, é simplesmente
pela Misericórdia de Deus!
Encontramos poucos
exemplos de homens neste quinto passo iniciático. A verdadeira Misericórdia
vem depois da Justiça. Só é misericordioso quem foi Justo, fora disto temos
pena e dó de nossos semelhante, por egoísmo, porque vemos na sua mazela a
possibilidade de sofremos igual mazela.
A Misericórdia
divina, por outro lado, transcende nosso entendimento de Justiça terrena —
podemos ter uma compreensão disto no Livro de Jó.
6 — Bem-aventurados
os puros de coração, porque verão a face de Deus.
Neste sexto passo o
homem se identifica com Deus!
Já no passo anterior
o homem transcendeu ao mundo, já se encontra caminhando em terrenos do coração,
onde a lógica e o raciocínio humanos não alcançam.
Aqui o homem saiu de
si, já não é mais sozinho, encontrou Misericórdia por tudo e por todos.
Este tudo e estes todos fazem parte dele neste momento evolutivo. Todo o egoísmo
saiu do seu coração, e o homem torna-se um "puro de coração"!
Este é o momento
evolutivo em que o peregrino pode dizer "Eu e o Pai somos um"!
Neste momento a
vontade do Homem é a vontade de Deus!
Homem com H maiúsculo,
porque neste estágio se encontra o verdadeiro Homem, o unigênito, o primeiro
nascido. O Mestre Jesus, saindo de sua iniciação no deserto para ser
batizado e iniciar sua visa pública.
Este passo iniciático
corresponde ao Amor!
Só existe o
verdadeiro amor depois que se vence o mundo, que se conhece a Justiça e que
se teve a Misericórdia. Antes disto o amor é egoísmo!
A conseqüência
deste passo é clara": "ver a face de Deus". O peregrino deste
passo identifica-se com Deus, mas não é Deus.
"Eu e o Pai
somos Um, minha vontade é a vontade do Pai, mas eu não sou o Pai".
Nada mais claramente
expressa estas afirmações do que "ver a face de Deus".
7 —
Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus.
Poderíamos supor que
o Homem que está diante da face de Deus, que é uno com Ele, tivesse
terminado sua peregrinação evolutiva neste Eon. O evangelho ainda lhe
reserva mais um passo.
Este Homem que
verdadeiramente amou o mundo, não poderia simplesmente partir liberto
sozinho! Tem que levar consigo os seus amados.
Não pode terminar
sua peregrinação sem que todos seus amados sejam também libertos. Tem que
trazer a Paz aos que ficaram para trás! "Bem-aventurados os
pacificadores".
Este é o sétimo
passo iniciático, que é representado pela "Paixão de Cristo".
O Homem veio trazer a
Paz a nós todos que ficamos: "Eu vos dou a minha Paz", "Eu vos
deixo a minha Paz".
Não é possível
deixar de voltar para trazer a Paz àquele que verdadeiramente amou.
A conseqüência
deste passo é aqui expressa de uma maneira clara e cristalina. Eis o
verdadeiro pacificador, que será chamado "Filho de Deus "!
O filho de Deus está
um passo adiante daquele que vê a face de Deus. Além de ser uno em vontade
é uno em essência: é filho!
É impressionante
como pode estar contido tanto em tão poucas palavras, e de modo tão claro.
Porém mais impressionante é de que modo tais palavras têm sido distorcidas
da realidade, visando interesses terrenos e escusos.
8 — Bem aventurado
os que sofrem perseguição por causa da Justiça, porque deles é o Reino dos Céus.
Este é o passo do
sofrimento de Jesus na cruz.
Ali estava o filho de
Deus perseguido por causa da Justiça, sendo crucificado. É necessário que
se seja crucificado por causa desta Justiça e que nesta crucificação o
iniciado seja capaz de perdoar: "Pai perdoai os porque não sabem o que
fazem".
Para ser filho de
Deus é necessário ser pacificador, mas para entrar no Reino é necessário
este oitavo passo, que decorre naturalmente de ser pacificador. O pacificador
é perseguido por causa da Justiça, e é crucificado porque não é mais
deste reino terreno. É do Reino dos Céus!
É bem-aventurado o
que sofre esta perseguição. Esta perseguição ocorre exatamente do atraso
evolutivo dos amados que ficaram.
A grandeza do ato do
iniciado fica expressa nesta perseguição, tanto maior quanto maior for o
desnível evolutivo entre este Homem e seus amados.
Esta oitava
bem-aventurança vem a ser também a afirmação de que todos nós que
habitamos neste mundo seremos libertos e atingiremos o Reino dos Céus.
Por bem ou por mal,
cada um de nós será um dia um Filho de Deus! Esta é uma consolação que
Evangelho nos traz, para que tenhamos ânimo na peregrinação terrena. Mesmo
os que não mendigaram pelas coisas do espírito e dessa forma puseram o pé
na Seara, mesmos estes terão o Reino, porque a Justiça os persegue.
Habita em cada um de
nós o Deus vivo e, mesmo que não tenhamos qualquer consciência disso,
far-se-á a Justiça. É justo que todos sejamos libertos!
Pela dor ou pelo amor
trilharemos cada um de nós esses passos iniciáticos até que o Cristo se
manifeste em nós.
Neste passo
praticamente se encerra a peregrinação do iniciado neste Eon.
Este oitavo passo
iniciático termina com a afirmação idêntica à inicial: "Porque dele
é o Reino dos Céus".
9 —Bem-aventurados
sois vós, quando vos injuriarem, perseguirem e mentirem,
dizendo todo mal contra vós por minha causa.
Exultai e
alegrai-vos, porque é grande vosso galardão nos céus, porque assim
perseguiram os profetas que foram antes de vós.
Pode parece estranho
que no Evangelho haja ainda nona bem-aventurança, que corresponderia a um
novo passo iniciático.
Aqui não é
exatamente um novo passo. A afirmativa é diferente: "Bem-aventurado sois
vós".
Isto mostra que não
se trata de um novo passo.
Aqui está uma benção
dirigida àqueles que, entendendo a mensagem de Jesus, compreenderam que o
Cristo está dentro deles, e por este Cristo são perseguidos, injuriados e
caluniados.
Este é o caminho
iniciático escolhido por aqueles que, pela dor e pelo sofrimento, optam por
manifestar o Cristo interno no mundo. Esta foi a opção dos profetas que nos
precederam.
Esta opção só pode
ser escolhida por aqueles que. tendo uma percepção extra-sensorial, sentem a
presença deste Cristo interno. Estes são os profetas, quando acertam o
caminho, e são os loucos quando nele se perdem.
Este caminho é o
caminho de espadas do Tarô.
Está aqui expresso
como uma consolação oferecida aos discípulos e que foi mais tarde mal
entendida pelos Mártires.
Interpretação de José
Carlos Fragomeni
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