Esta é uma
das parábolas de mais difícil interpretação do Evangelho. Aparece
apenas no Evangelho de Lucas. Este Evangelho difere dos demais por não
ser Lucas de origem judaica. Um judeu não conceberia assim um Juiz não
justo. Por isto seu significado tem que ser procurado de um modo
diferente, não se enquadrando nas interpretações mais comuns.
Por que motivo o Juiz não justo atenderia a viúva? A parábola é um
paradoxo em relação à mensagem de Jesus. Parece frontalmente em
desacordo com a mensagem de amor de Jesus.
Para entendermos esta parábola temos que começar com as interpretações
mais comumente apresentadas
A Insistência
A viúva
conseguiu que o Juiz a defendesse porque foi insistente. Se formos
insistentes e ficarmos sempre pedindo, Deus nos atenderá, para não
mais se incomodar com nosso peditório.
Deste modo agem certas pessoas, repetindo indefinidamente suas preces,
julgando que por isso serão atendidas: simplesmente devido à repetição
constante.
Aparentemente, se estivermos sempre pedindo, seremos atendido devido
à nossa insistência. Deus nos atenderia para que parássemos de
incomodá- Lo. A insistência seria um maneira de conseguirmos as graças
dos céus.
Esta é, sem duvida, a primeira e mais simples interpretação da
presente parábola.
Constância
A viúva
pedia com constância. Uma exortação à prece constante!
O pedido feito com constância seria um exercício de adoração, que
deixaria o juiz lisonjeado — e por isso atenderia à viúva.
Pedindo sempre, estaríamos adorando a Deus constantemente,
lisonjeando-o. Deus, lisonjeado, nos atenderia!
Desta forma agem muitos que se julgam credores dos favores de Deus,
porque estão sempre a exaltá-Lo, e desta forma Deus, agradecido pela
adoração, os atenderia.
Mudança de
atitude
A viúva,
pedindo com insistência e constância, através do exercício da
vontade provocaria uma mudança de atitude positiva em relação ao
seu problema.
Essa mudança de atitude em relação ao problema determinaria uma
tendência ao sucesso do empreendimento. A petição insistente e
constante modificaria a atitude, e essa mudança de atitude
modificaria a tendência para o fato se resolver. O juiz
inconscientemente tenderia a defendê-la.
Desta forma agem aqueles que com preces constante chegam mesmo a
modificar as tendência emocionais ou astrais de certos problemas,
levando a uma solução em concordância com sua necessidades.
Todas estas interpretações têm como ponto de apoio o incentivo à
prece e à oração. Dentro dos conceitos religiosos vigentes, o homem
rezaria para pedir alguma coisa a Deus! Funcionando a prece com uma
intermediação entre o homem e um Deus antropomórfico.
O que é do interesse daqueles que julgam ou pretendem manter seu
poder através dessa intermediação.
A Última
Frase
Não é este,
na realidade, o sentido da prece! Exatamente por isso, todas as
interpretações esbarram na última frase da parábola, que parece
estar aí colocada sem qualquer sentido:
Digo-vos
que defenderá com rapidez.
Mas ao vir, acaso o Filho do Homem achará fidelidade na terra?
Há mesmo
alguns que aceitam esta frase como tendo sido colocada aí
posteriormente. Não parece. Para que assim fosse, teria que ter um
sentido bem claro, como ocorre em outras interposições que foram
feitas para dar um sentido que se coadune com alguma doutrina específica
ou para forçar algum sentido. Se não foi posteriormente colocada aí,
esta frase deve obrigatoriamente ter um sentido com o texto! Isto
torna-se mais claro quando vemos as interpretações comumente dadas
ao texto, como se Deus nos atendesse para não mais ser incomodado por
nós. Ou porque ficaria lisonjeado com nossa adoração. Ou ainda
reduzindo a prece a um exercício de auto-ajuda. Esta frase está aí
exatamente porque esta parábola deve ter algum sentido muito além
dessa simplicidade. Por isso a dificuldade em interpretá-la, e o seu
aparente paradoxo com a mensagem de Jesus.
A prece é a
comunhão vibratória do ser com o Seu "criador", e a
descoberta de que este "criador" encontra-se dentro de nós
mesmos! Que essa energia "criadora" de tudo é parte da sua
própria energia. Mesmo isto se dê por um rápido instante, fugidio
como um raio, mesmo que imediatamente voltemos à nossa pesada vibração
terrena, mesmo assim, neste instante há toda esta grandeza na prece.
O que quererá dizer que "ao vir o Filho do Homem achara
fidelidade na terra"?
Em o Filho do Homem encontrar fidelidade na terra está exatamente a
chave desse paradoxo.
O Juiz, que "não temia a Deus nem respeitava os homens"
poderia ter mandado eliminar de alguma forma a viúva. Repare-se que,
especificamente, foi dito que não respeitava os homens! Por que não
o fez? Porque, mesmo não temendo a Deus, havia nele uma fidelidade
com uma Grande Lei. Com uma Justiça Maior, que transcendia seu
entendimento. Havia, enfim uma fidelidade com o Filho do Homem!
Com o átomo Nous que, mesmo dentro da sua ignorância, morava no seu
coração.
Esta é a
fidelidade que se encontra na terra Esta fidelidade na terra
refere-se a uma identidade na natureza com a lei de Deus!
Mesmo quando não há temor a Deus nem respeito aos homens, existe na
natureza humana uma identidade, ou seja, uma fidelidade com a lei de
Deus. O Juiz não justo vai cumprir o "ser fiel ao Filho do
Homem" para que a viúva não venha a molestá-lo até o fim.
Por que a viúva
o molestava? Porque no fundo do seu ser estava escrita essa Lei, que a
viúva reclamava. Mesmo não temendo a Deus, foi fiel ao Filho do
Homem. Porque este estava impregnado em suas entranhas. A natureza
humana tem escrito dento do homem esse código ou essa lei, sob a
forma de estar o Filho do Homem adormecido dentro de cada um de nós.
Finalidade
Esta parábola
tem a finalidade de mostrar-nos que na terra, mesmo quando não há fé,
há ainda assim uma fidelidade com a Grande Lei.
O Juiz não justo poderia mandar prender ou fazer desaparecer a viúva;
não o fez porque era fiel ao Filho do Homem! Por ser fiel é que o
pedido da viúva o incomodava.
Deus, porém
não defenderá os seus escolhidos que a ele clamam dia e noite, nem
é misericordioso com eles? Digo-vos que defenderá com rapidez.
Claro que defenderá, digo-vos que com rapidez!
Mas, ao vir, acaso o Filho do Homem achará fidelidade na terra? Achará,
porque a natureza humana que vive na terra lhe é fiel!
O homem, como
uma "criatura" de Deus, é destinado a ser fiel ao Filho do
Homem que mora dentro do seu peito, no átomo "Nous".
A parábola
do "Juiz não justo" nos dá, na realidade, uma dimensão
muito maior da posição do homem na terra. A parábola traz como
mensagem: "Confie, mesmo no Juiz não justo!" Porque mesmo
ele, obrigatoriamente, é fiel ao Filho do Homem! O Filho do Homem está
dentro de cada um de nós. Obrigatoriamente somos fieis a ELE!
Quando
fizeres tua prece, guarda a certeza de que te identificarás com o
Deus que está dentro de ti!
O aparente
paradoxo desta parábola se esclarece no momento que entendemos que
mesmo o Juiz não justo é fiel ao Filho do Homem!
Este é o principal sentido dessa complexa parábola, e encontra-se
escondido sob a simplicidade da viúva, que é persistente, constante,
e consegue de qualquer forma ser protegida pelo Juiz não justo.
Mostrando a fidelidade do Juiz não justo com o Filho do Homem, a parábola
enquadra-se perfeitamente na mensagem de Jesus.
As interpretações iniciais são muito primárias, e não atingem
toda a grandeza da mensagem evangélica.
Interpretação
de José Carlos Fragomeni
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