Interpretações
Esta
parábola é uma das muitas parábolas que comportam interpretações
discutíveis no evangelho.
"O últimos serão os primeiros" — Esta é uma afirmação
que pode ser usada com diversas intenções, visando a intencionalidade
mais variada. É usada freqüentemente para justificar os que são os últimos,
devido a fatores que independem do seu arbítrio. Pode ser manipulada
dando respaldo àqueles que nada fazem para não serem os últimos.
Também é uma afirmativa da eqüidade com que Deus trata todas as Suas
criaturas, pagando o mesmo dinheiro para os últimos e para os
primeiros.
Traz afirmativas aparentemente muito injustas: pagando primeiro os que
trabalharam menos tempo na vinha.Esta aparente injustiça tem sido
explicada de várias formas pelos estudiosos do evangelho. Quase todas
explorando a resposta do Senhor da Vinha, que quer tratar com igualdade
a todos, e vê-se contestado pelos que têm o olho mau e se sentem traídos
porque o Senhor é bom. Seria um modo de evidenciar a pequenez dos que
trabalharam toda a jornada, que teriam o olho mau porque o olho do
Senhor da vinha é Bom.
Outra
linha de interpretação valoriza o fato de que alguns podem trabalhar
menos tempo e produzir muito mais; não são os mais antigos os que mais
produzem. Valorizando aqueles que têm dons maiores e que em pouco tempo
produzem mais, merecendo o mesmo salário.
Estas
explicações são, sem dúvida, interessantes e elucidativas. Mas
falta-lhes algo que corresponda à grandeza das mensagens evangélicas.
Os evangelhos são fruto da mais pura simplicidade e clareza, devendo
haver uma intenção bastante mais clara nesta parábola.
A
cena
Em
uma cidade, todos os que desejam trabalhar se reúnem de madrugada na
praça, onde aqueles que dispõem de trabalho vêm para contratá-los.
Para a praça deslocam-se os "buscadores", quando o sol ainda
não nasceu, deixando seus lares, mulheres e filhos, levando seus farnéis
frios — de onde vem o nome "bóias frias", como são
conhecidos estes trabalhadores em nossa terra. Podemos ver que pouca
mudança houve nestes 2 mil anos.
Ficam
na praça esperando. Esperando uma oportunidade de trabalho, esperando
serem chamados, esperando receber o salário justo. Esperando!
Os
que são contratados na primeira hora, são os mais qualificados, e que
têm a oportunidade de discutir seu salário.
À
medida que passa o tempo, vão restando na praça os menos qualificados,
os mais fracos, os coxos, os cegos e os dementes. Estes vão, a cada
hora, voltando para suas casas na cidade, desistindo da oportunidade de
um chamamento para o trabalho na vinha. Perdendo a esperança e perdendo
a fé!
Os
que permanecem na praça apesar de não terem sido chamados, são
exatamente os mais qualificados espiritualmente. São os que mais têm fé,
os que mais têm esperança. Os que mais têm certeza, esperança e fé,
de que uma hora, mesmo que seja a última (undécima) hora, serão
chamados para a Vinha do Senhor.
O
Reino dos Céus
A
grande dificuldade na interpretação desta parábola está em confundir
o reino dos céus com a Vinha do Senhor. "Reino dos Céus é
semelhante a um homem Senhor da Vinha." Claramente a parábola
afirma que o Reino dos Céus é como o Senhor da Vinha, e não como a
Vinha.
Para
se atingir o Reino dos Céus teremos que ser como o Senhor da Vinha, que
vai buscar trabalhadores na cidade (mundo), escolhe entre os que estão
na praça (egrégoras) esperando, contrata os mais qualificados (que têm
maiores dons), volta de 3 em 3 horas buscando na praça os que
"mendigam as coisas do espírito", contrata a todos que
encontra (dá uma finalidade à vida de cada um que busca).
Na
última hora, ainda vai uma hora antes (undécima) de terminar a
jornada, e contrata aqueles últimos, que desqualificados pela natureza
de dons maravilhosos, permaneceram na praça, lutando com as tentações
que os chamavam à cidade (mundo). Estes últimos são os que mais têm
esperança, os que mais têm fé, os que mais têm a certeza de que
existe um sentido maior para suas existências. São estes os que mais
se parecem com o Senhor da Vinha!
A
praça
Aquele
que se inicia no caminho da espiritualidade (mendiga as coisas do espírito),
sai de sua casa e vai para a "praça". Estas "praças"
são comunidades espirituais, que podem ter diversas denominações, que
têm em comum uma egrégora, e que abrigam os que estão neste mundo
buscando as coisas do espírito, "mendigando as coisas do espírito".
A
praça representa a egrégora à qual o "buscador" se vincula,
que pode ser qualquer corrente religiosa, católica, espírita, budista,
protestante, xamânica, ubandista e até mesmo um conjunto de regra
morais de tantos que se dizem ateus.
Todos
os que se iniciam na espiritualidade ficam em suas "praças",
onde aguardam a oportunidade de trabalhar na Vinha do Senhor (encontrar
uma finalidade para sua vida, "bios"). As "praças"
são muitas, mas em todas as "praças", o Senhor da Vinha
aparecerá para contratar os que mendigam as coisas do espírito
("bem aventurados os pobres pelo espírito, por que deles será o
reino dos céus ").
A
cidade
Os
que foram para a praça em busca de trabalho, saíram da
"cidade" (mundo), deixaram suas casas, em busca de participar
de uma harmonia com o Todo.
Poderiam
ter ficado na "cidade" e participar de atividades menos
produtivas do que cultivar a terra, ou mesmo dedicar-se a outros
afazeres desqualificados, ou ainda não fazer nada com a vida (bios)
que receberam.
O
"buscador" sai da cidade e vai para a praça ainda antes do
nascer do sol. A "cidade" aqui representa as coisas do mundo
material, que o "buscador" abandona quando vai para a sua
"praça".
A
casa
Aquele
que se integra em uma egrégora (praça) deixa a sua casa, seu lar, sua
mulher e seus filhos.
Esta
parábola é maravilhosa na elucidação desta afirmativa evangélica, tão
controvertida, de que o discípulo deve deixar seu lar para seguir o
caminho espiritual. O trabalhador que vai em busca do serviço, não
abandona seu lar; está em busca de um salário, para poder sustentar as
necessidades da esposa e dos filhos.
Este
salário, também não é o dinheiro, mas sim o salário que dará uma
destinação maior a esta sua família. Esta comparação nos dá a
medida exata do que o evangelho quer dizer com "abandonar pai e mãe,
mulher e filhos para seguir o Cristo".
Os
que esperam
Todos
os "buscadores" que se encontram na praça têm uma esperança,
uma fé, de que o Senhor da Vinha venha em alguma hora do dia a chamá-lo.
Há em todos uma fé de que serão chamados. Esta fé é inversamente
proporcional à sua qualificação para o trabalho na Vinha.
Aquele
que dispõe de dons maravilhosos, como o conhecimento, a mediunidade, a
profecia, a telecinesia, a levitação ou qualquer outro dom
maravilhoso, quase não precisa ter fé, tem a certeza de que será
chamado para servir na logo na primeira hora.
Os
que não têm a benção de um dom, necessitam cultivar em seus corações
esta fé. Estes que não dispõem de dons, em sua maioria ficam na
"cidade", presos às coisas mundanas.
Aqueles
que, desprovidos de dons (desqualificados para o trabalho da vinha), e
que mesmo assim vão para a "praça", são os que estão
construindo com suas próprias mãos a grandeza do seu ser espiritual. São
os que têm maior fé. São os que mais se assemelham ao Senhor da
Vinha.
O
chamamento
Na
praça os "buscadores" ficam parados, esperando o chamamento;
esperam o Senhor da Vinha, mas muitos outros senhores vão à praça
contratar trabalhadores.
Estão
sujeitos a serem contratados por outros senhores que se assemelhem ao
Senhor da Vinha.
Os
portadores dos dons (qualificações espirituais), por terem normalmente
menos fé, são os que mais facilmente são ludibriados por estes outros
senhores.
Os
senhores falsos, buscam unicamente as qualificações externas dos
trabalhadores, não são capazes de entender que o maior valor do
trabalhador está em seu interior.
Estes
que são chamados na primeira hora, acertam seu salário, e neste acerto
têm a oportunidade de pedir mais do que seria justo; os outros são
contratados simplesmente "pelo que é justo".
Este
fato torna os primeiros menos qualificados na construção interna do
seu ser espiritual.
O
trabalho na vinha
O
trabalho não é um castigo, é antes uma necessidade do homem. Este
fato tem motivado as interpretações distorcidas desta parábola, com
as aparentes injustiças. O trabalho na Vinha do Senhor, é o prêmio
maior do "buscador". É o ideal de quem busca. O salário nada
mais representa que o reconhecimento da finalidade da vida (destino do
ser) .
"Busca
as coisas do céu e o mais te será dado em acréscimo."
O
salário justo é de um denário para todos. Aquele que tenta ajustar
mais por seu dia de trabalho esta lesando o Senhor da Vinha. O
"reino dos céus", claramente na parábola, não é a Vinha. O
"reino dos céus" é ser como o Senhor da Vinha.
Pois
o Reino dos Céus é semelhante a um homem Senhor da Vinha, que saiu
desde a madrugada para contratar trabalhadores para sua vinha. O
"reino dos céus" está em ser como o Senhor da Vinha.
Consiste em construir dento de si a grandeza deste Senhor, que na parábola
é o Cristo manifesto em Jesus.
É
muito mais fácil levar uma vida santa, quando se veio ao mundo com um
dom maravilhoso. Neste caso se dispõe de uma âncora com a
espiritualidade, que dá respaldo a uma vida santa. Estes dons nem
sempre guardam relação com elevação espiritual .Ha pessoas com dons
maravilhosos e completamente desqualificadas de elevação espiritual.
É muito mais difícil levar uma vida santa, se não se dispõe desta ãncora,
porque todos os nossos sentidos estão presos às coisas materiais.
Quando
o homem não foi chamado logo na primeira hora, e consegue levar uma
vida santa (integrada na harmonia com o todo), seu valor é muito maior,
pois que construiu a divindade, o próprio Deus, dentro de si mesmo.
Este que constrói a divindade em si, é o verdadeiramente santo, é o
escolhido, é quem tem realmente Deus em si, é aquele que é, Eu Sou!
É o que se assemelha ao Senhor da Vinha.
Ser
santo como foi Joana D'Arc,
que foi chamada pela sua mediunidade, ao perceber o chamado do "Espírito
Francês", ou como José de
Cupertino, que levitava quando estava em oração...
É com certeza menos meritório do que São
Paulo, que construiu um Deus dentro de si, baseado em uma
visão, quando da queda do cavalo a caminho de Damasco, o que pode para
qualquer um de nós ser entendido como uma simples alucinação.
São
Francisco de Assis, que partindo da sua materialidade
chegou a tornar-se o maior ser espiritual que viveu neste planeta depois
de Jesus. Foi para a "praça" pelas suas pernas, sofrendo sua
dúvidas, sendo esmagado por seus desejos, sentindo sua miserabilidade,
sem dons que fizessem prodígios. Deixando a "cidade" onde
desfrutava dos prazeres mundanos. Abandonou pai e mãe. Ficou na
"praça" esperando o chamamento, não foi iludido pelos falsos
senhores de vinha, que àquela época dominavam a Igreja. Não o foi,
exatamente por que lhe faltaram dons maravilhosos.Não profetizava, não
movia objetos, não levitava, não via nem ouvia maravilhas dos céus,
uma vez ouviu uma voz que o chamava, como muitos de nós já tivemos
ilusões de ter ouvido. Se tivesse dons, teria facilidade de se
transportar para a vida espiritual, seria chamado logo na primeira hora,
discutiria como senhor o seu salário, teria sido um poderoso bispo da
Igreja. Se tivesse estes dons, não teria sofrido a tempestade interior
que o fez realmente grande em espírito. Foi capaz de ficar na "praça"
até a undécima hora, esperando o chamado do verdadeiro Senhor da
Vinha. No fim de sua vida, após uma grande crise interior, foi chagado
como Cristo, do mesmo modo que tantos histéricos o tem sido. Toda a
grandeza de São Francisco está nele mesmo! Sua grandeza está no Deus
que existe dentro de cada um de nós, e que ele São Francisco, sozinho,
deu à luz, através de um parto extremamente sofrido. A vida de São
Francisco de Assis, é um exemplo maravilhoso desta parábola, e uma
explicação clara do que o evangelho quer dizer com a frase "os últimos
serão os primeiros".
Os
primeiros a serem chamados são os que mais aparecem
ou se projetam, que menos oportunidade têm de darem à luz ao Deus
que está em si.
Os
últimos a serem chamados, tendo estado mais tempo em
suas lutas interiores, têm mais qualificação para a elevação
espiritual, sendo capazes de dar à luz o Deus que habita em seus corações
Estes últimos a serem chamados serão os escolhidos!
Os
últimos serão os primeiros!
O
mundo de hoje
Estamos
todos na praça. Uns são chamados logo na primeira hora. Outros na
sexta, na nona, e os últimos na undécima hora (quase 12). O chamamento
se faz em ciclos de 3 em 3 horas. O último ciclo é chamado às 11
porque às doze horas já teria terminado a jornada.
Estes
últimos só receberam o chamado para o trabalho na vinha no último
momento. Seu valor está em terem permanecido na "praça" por
quase toda a jornada, sem perderem a esperança de trabalharem na Vinha
do Senhor. Mesmo não tendo sido chamados, nunca perderam a fé, ficaram
na "praça", tendo a oportunidade de crescer interiormente. Têm
portanto muito mais valor do que os que na primeira hora foram chamados
ao trabalho, e que não tinham ainda construído dentro de si mesmo um
"olho bom".
O
verdadeiro valor do homem não está em ser chamado para o trabalho na
vinha, todos que formos para a "praça" seremos chamados, mais
cedo ou mais tarde. Porque Deus nos criou com a finalidade de trabalhar
na Vinha.
O
escolhido não é o chamado para a jornada. Escolhido
é o que é distinguido pelo Senhor da Vinha para ser o primeiro a
receber o seu denário. A escolha é feita pelas qualidades interiores,
que o assemelham ao Senhor da Vinha. O escolhido é aquele que
modificou-se interiormente através da dor, do sofrimento, e
principalmente da espera, com esperança e com fé.
A
contestação dos que trabalharam mais tempo, mostra claramente o quanto
precisam ainda se modificar interiormente para um dia poderem se
escolhidos.
O
valor do pagamento é sempre um denário, não pode ser mais nem pode
ser menos, porque é o suprimento das necessidades do homem que vive no
mundo.
Os
últimos não estavam acertando valor de pagamento; aceitaram
simplesmente que seriam pagos com o que fosse justo. A parábola mostra
claramente que os que foram chamados logo no início, tiveram pouco
tempo para fazer a mudança interior que os tornaria escolhidos. Se
apresentaram ao trabalho na vinha barganhando um denário com o senhor.
Os últimos foram pelo que é justo. Crentes na justiça do Senhor da
Vinha.
Os
chamados na primeira hora, são aqueles que vieram ao mundo com
oportunidades materiais, psíquicas e espirituais, que lhes permitem
trabalhar na vinha do senhor. Com estas qualificações se livram das
necessidades e das agruras de lutar com as tentações e os sofrimentos
do mundo (permanecendo na praça).
O
grande valor não está em ser chamado, está em permanecer na praça do
mundo, sofrendo e cultivando a esperança de ser um dia chamado. Este
cresce interiormente e se torna mais apto a ser escolhido do que aquele
que chamado na primeira hora se regozija no trabalho da vinha do senhor.
É
comum que os chamados de primeira hora se julguem com maiores qualificações
que os demais, por que não entendem que o chamamento da primeira hora
lhes tira oportunidades de crescer interiormente.
O
verdadeiro valor não está em ser chamado, porque muitos serão
os chamados; está em ser escolhido. Escolhido é aquele que se
transformou interiormente, tornando-se semelhante ao Senhor da Vinha
(Cristo). Poucos serão os escolhidos.
Tem
mais chance de ser escolhido, aquele que permaneceu na praça até a
ultima hora. Sabendo que estava chegando o final da jornada, não perdeu
a esperança de ser contratado para o trabalho da vinha.
Os
últimos chamados serão os escolhidos.
Os
últimos serão os primeiros. Este é claramente o sentido
desta parábola. Como está dito clara e literalmente no último versículo
Assim, os últimos serão primeiros e os primeiros, últimos. Aqueles
que vivem neste "fim de tempo" (undécima
hora), e que permanecem na sua "praça" (seja qual for a sua
designação), mantendo a fé e a esperança de que nesta última hora o
Senhor os convoque para participar de Sua harmonia; terão mais chance
de serem os escolhidos. Porque estarão mais preparados interiormente.
Este
"fim dos tempos", como suas transformações
rápidas e globais, estará permitindo aos que permanecem em suas
"praças" um crescimento interior maravilhoso, que os
qualificará para serem os primeiros escolhidos, exatamente por terem
sido os últimos a serem chamados.
Tarô
O Tarô
é um livro de sabedoria deixado pelos antigos que dispunham de
um conhecimento que se perdeu. O Evangelho é um livro
com esta mesma sabedoria perdida.
Interessante:
nota-se na distribuição dos versículos desta parábola, que o versículo
de número 16 que a encerra, corresponde no Tarô a uma
carta também de difícil interpretação que é a Torre
ou a Queda. A figura é uma torre sendo derrubada por
um raio divino, e dela estão caindo 3 pessoas. Só cai aquele que
subiu!
Esta
parábola é também uma explicação clara desta carta. Mostra que
aqueles que subiram devido a outras qualificações que não fossem as
interiores (verdadeiras) cairão, porque não estão em harmonia com o
TODO.
Observando
a carta 16 do Tarô, temos a exata compreensão do significado desta parábola.
Prece
Que
mestre Jesus nos ilumine a mente, dando ânimo e persistência, para
permanecermos na "praça", e aqueça nossos corações, para
que tenhamos fé.
E
que no momento de sermos contratados (fazermos nosso trabalho),
estejamos preparados à semelhança do Senhor da Vinha (Cristo Interno).
Que
o Mestre Jesus nos auxilie a dar à luz o Deus que mora em nossos corações!
Interpretação
de José Carlos Fragomeni.
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