A busca e o valor de uma medalha

Por João Lameira

Conheça a história de Bilica, um verdadeiro campeão valenciano

Nós caminhamos por aí e muitas vezes esbarramos em várias histórias e vários personagens que nunca conheceremos nem nunca teremos noção da importância que têm. Mas por muitas vezes em nossas vidas a gente acaba tendo oportunidades de conhecer essas incríveis histórias de vida que nem imaginávamos existir. Esse é o sentimento que impera quando se conhece a história do Sr. Bilica, 82 anos, ciclista, avô, pai, dançarino, pescador, puxador de carnaval e músico.

E é Bilica mesmo, segundo o próprio, Amaurílio Antonio fica só pras súmulas das competições. Com 16 anos de idade, Bilica já havia percebido que a bicicleta não era só um meio de transporte – e trabalho, como ele a utiliza até hoje. Para ele, já naquela época a bicicleta representava o amor pelo esporte e pela competição, pela emoção.

“Eu comecei a correr com 16 anos de idade. Eu vi que era um esporte bom, né (sic). Comecei a
encarar e correr, corri no juvenil, infantil, amador, profissional e veterano. A primeira
competição foi na Nilo Peçanha, saia de onde hoje é um banco, saia dali, subia a Silva Jardim,
passava em frente à delegacia, em frente ao hospital e descia, 15 voltas. Ali foi a primeira
prova, quando comecei a correr[…]. Eu peguei a primeira medalha.”

Com muito orgulho, ele conta das medalhas e troféus conquistados em São Paulo e região. Conta da vez que competiu no Autódromo de Interlagos, onde por apenas meia roda não subiu no topo do pódio. E também explica um pouco das suas características como ciclista.

“Eu subo bem e sprinto bem. Então vou no pelotão, na hora de subir, subo junto do pelotão e
na hora de sprintar eu procuro sempre localizar o lugar que tem como eu sair pra fechar a corrida.
Atravessar a faixa, meu objetivo é esse em todas as provas.”, segundo ele, sua característica numa prova é a do chegador.
“Se você ver uma prova, o gregário é aquele que leva o pelotão. Ele não vai pra ganhar, ele vai pra levar a equipe dele.
Ele chega na hora, o gregário abre e o chegador avança. Ele vai no vácuo.”

Ainda passeando por seus anos de carreira, ele relembra de 64, quando um dos melhores ciclistas do estado do Rio contou vitória contra ele antes da hora em uma corrida dentro de Valença. A competição daria ao primeiro colocado uma bicicleta como premiação.

“Ele vendeu a bicicleta na véspera da corrida, contando que ia ganhar a prova. Chegou no
outro dia, estava disputando. Esse chegador gritou “quem que vai entrar na rodoviária?”.
Ninguém entrou. Ele entrou, eu fui e peguei o vácuo dele. Ele arrancou…, aproximando mais
um cadinho botei meia bicicleta junto com a dele e atravessei a faixa com meia roda.

Essa foi uma das melhores provas que eu ganhei até hoje. Porque ele era um dos melhores chegadores que tinha. E eu ganhei por meia roda. Ele contando com a vitória pra vender a bicicleta. Peguei a bicicleta levantei assim no alto, foi um show.”

E não é só de glórias da juventude que ele vive. Ainda relembrando suas mais marcantes corridas, ele lembra de quando venceu um percurso de Ubatuba-Paraty, ida e volta, há apenas 6 anos. Sim, aos 82 anos ele conta de como foi vitorioso em um percurso de 52 km!

Ainda nessa corrida ele conta sobre um diálogo que teve com um competidor quando os dois lideravam a corrida. Relembra de como a competição no esporte já foi mais limpa, o que segundo ele hoje não existe tanto. “Um quer engolir o outro”. E é nesse cenário atual que ele vê seu filho Humberto, fiel escudeiro em suas corridas, entrar para o mundo das competições num cenário não tão igual ao que ele cresceu. Um cenário com menos corridas e mais corridas caras, falta de patrocínio, entre vários outros percalços.

Mas é aqui que o Sr Bilica se torna mais forte ainda como pessoa, personagem, atleta e ser humano. Quando começa a contar dos filhos, dos netos, ai sim ele muda o tom de voz. E se você sente o orgulho na voz dele quando conta dos seus próprios feitos, quando ele fala de sua família é aí que o orgulho toma um outro nível. E a partir dali a conversa toma outros rumos. O seu segundo lugar no campeonato brasileiro em categoria veterana de 70 anos torna-se uma vírgula perto de seu neto Leandro competindo, perto dos planos que ele tem para o futuro com seu filho Humberto. A bicicleta tornou-se fator de união em sua família.

E engana-se você se pensar que é apenas na bicicleta. A conversa então avença, e Bilica conta sobre seus tempos comandando blocos no carnaval, tocando trompete nas matinês e dançando nos bailes da vida, conta sobre sua pescaria. Claro, ele ainda conta sobre seus 11 troféus em um circuito de competições que lhe rendeu o título de campeão sul-fluminense.

Mas logo depois ele conta sobre como largou o trompete e decidiu se dedicar à gaita, instrumento que ele logo saca e dá uma bonita palhinha do que ainda estava por vir. Ele fala sobre como é feliz por saber exatamente tudo o que gosta de fazer e de poder fazer isso tudo junto com sua família. E então cita seu neto, Douglas Lacerda, compositor valenciano, e terminamos essa entrevista ouvindo um CD que ele gravou junto com seu neto, Bilica na gaita e seu neto no violão.

E eu saio de lá emocionado, lembrando das palavras dele quando estávamos falando ainda das competições: “Eu nunca corri pelo dinheiro, falo com sinceridade. Sempre briguei pela medalha”.

É que só depois eu entendi que a medalha nem sempre é aquela que eles dão aos vencedores, e sim aquela que conquistamos cientes de nossa capacidade, determinação e de quem está sempre conosco.

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