Museu da Santa Casa da Misericórdia preserva histórica pinacoteca

Por Giovanni Nogueira
Além da bela arquitetura, museu ainda exibe instrumentos médicos dos séculos XIX e XX.

De palco para a foto oficial de formatura das turmas da Faculdade de Medicina, até o espaço para jovens estudantes pesquisarem nos milhares de livros da antiga Biblioteca Dom Pedro II, atual Biblioteca Municipal Leoni Iório, a Santa Casa da Misericórdia resiste às dificuldades. Localizada na praça Balbina Fonseca, no anel central da cidade que ainda contêm interessantes e preservados casarios antigos, a mesma apresenta rica arquitetura com grandes janelas centenárias, pisos de ladrilhos hidráulicos, salas com assoalhos e uma linda escadaria com pedras parecidas esculpidas à mão.

Localizada nas proximidades do Hospital Luiz Gioseffi Jannuzzi, o “Hospital Escola”, a Santa Casa contém um museu que possui, talvez, a mais significativa pinacoteca da cidade. O acervo de quadros emoldurados detém figuras dos mais ilustres benfeitores locais, como o Visconde do Rio Preto, o Comendador Antônio Jannuzzi, entre outros. Além disso, existe uma curiosa coleção com objetos e instrumentos utilizados pela medicina ao longo do século XX.

De acordo com o atual provedor, Luiz Sérgio Leite Pinto, há o esforço da instituição em abrir suas portas em eventos especiais como o Inverno Musical, evento organizado pela Orquestra
de Cordas do Jardim Valença.

– O museu e a capela sempre abrem quando há algum evento ou quando há solicitação de grupos, ou de turistas que visitam a cidade. Lembro que todas às quartas-feiras, na capela ao lado, é celebrada a missa das 16h – observou.

IMPORTÂNCIA HISTÓRICA

O valor histórico é imensurável, porém como em todas as instituições culturais brasileiras há algumas carências e a falta de interesse popular, mas cabe a historiadores e jornalistas rememorarem a importância dos mesmos para as suas comunidades. De acordo com Adriano Novaes, o museu da Santa Casa tem importância também para a história médico-hospitalar da região.

– Ele foi criado em 1998 e teve como primeira e atual diretora, Wanda Nascimento Pinto,
membro da Santa Casa da Misericórdia, que trabalha em prol dos cuidados com o museu. Ele
reúne peças que ajudam a contar a trajetória da irmandade e seu hospital ao longo de seus
mais de 100 anos. A mesma é importante tanto para a história médico-hospitalar daqui de
Valença, quanto para a região .

Segundo ele, quando se pensou em abrir o museu, a ideia inicial, surgida ainda no fim da década de 80, era com a proposta do tombamento do prédio e da pinacoteca.

– Assim iria acontecer o tombamento do prédio, dos quadros e de alguns objetos, pelo Iphan,
Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, com a ideia de se preservar o patrimônio
e o que restou de sua memória. Foi escolhido o que tinha de maior valor histórico, expressivo
e estético, através desse conjunto de informações relevantes. Assim, ele nasceu, após serem
recolhidas essas peças espalhadas pelo prédio.

Sob o aspecto da história da saúde de Valença, ele ressalta a importância da instituição no cuidado com a saúde dos munícipes, principalmente com os mais carentes.

– Há muitos aspectos relacionados: sociais, políticos, culturais que envolvem toda a história do
local. E o acervo é isso, é o testemunho dessas histórias – frisa.

PINACOTECA

Para Adriano, sem dúvida alguma, desde o começo o que motivou o tombamento foi a coleção com mais de quarenta telas que retratam os antigos provedores e benfeitores.

– A qualidade, a estética e a beleza das pinturas, bem como o estado de conservação, faz com
que o conjunto de telas tenha um peso muito importante. Essas pinturas retratam diretores,
benfeitores e provedores que ajudavam financeiramente a Santa Casa e elas transcendem os
próprios muros, pois também tinham extrema importância como fazendeiros de café na
região. Muitos tinham relevância e influência no cenário político do Império e há provedores
que se tornaram ministros, governadores de província e que tiveram destaque na vida política
do país.

Ele ainda ressalta o papel da irmandade ao longo dos séculos.

– Ela foi muito importante. Tinha um papel social relevante na cidade com as pessoas. Eles
davam abrigo e proteção, cuidavam, zelavam e assistiam as pessoas que não tinham condições
financeiras para pagar um médico, pois era tudo muito difícil nos século XIX.

PEÇAS E CURIOSIDADES

De acordo com Adriano, algumas peças simplesmente desapareceram ao longo do tempo, sendo perdidas para sempre.

– Muitas se perderam e não sabemos quais foram, pois há muitos anos que a instituição existe.
Tem uma tela que infelizmente se perdeu, que foi a do provedor Joaquim Saldanha Marinho.
Ela era importante porque que ele foi o provedor que construiu o atual prédio que existe lá, e
também por ele ter sido um dos fundadores do Partido Republicano, sendo assim um dos pais
da república no Brasil depois de ter saído de Valença como advogado. Ela caiu, se resgou e se
perdeu. Não se sabe se ela foi levada para ser restaurada e se perdeu, ou se foi roubada.

Sobre algumas curiosidades, Adriano diz que os visitantes irão se surpreender com os curiosos instrumentos médicos.

– Se compararmos com a evolução dos tratamentos, temos instrumentos que eram utilizados
na antiga enfermaria e nas antigas salas de cirurgia do século XIX, XX e até de 50 anos atrás.
Até recentemente alguns eram usados em curativos e cirurgias. Peças bastante curiosas que as
pessoas podem vir conhecer.

O acervo atual apresenta mais de 200 objetos entre instrumentos cirúrgicos, aparelhos de anestesia e operação, seringas, vasilhames de porcelana (para misturar e guardar remédios) entre outras que permitem conhecer parte da evolução das artes médicas. Estão expostos também coches funerários usados em cerimônias fúnebres no século XIX além de fotos e documentos que refazem a trajetória da Santa Casa.

FUTURO

Apesar de alguns problemas, a condição do patrimônio é acompanhada por especialistas.

– Falta uma catalogação que está em processo e em andamento sendo feita por museólogas do
Inepac, Instituto Estadual do Patrimônio Cultural que inclusive tombou o prédio em 2004, e
agora no fim de 2018 foi tombado em definitivo. A ideia é que se tombe também o patrimônio
e estamos fazendo um trabalho de catalogação, que infelizmente não é contínuo – disse
detalhando que as museólogas se deslocam do Rio para cá.

Sobre o processo de catalogação e acompanhamento, explica.

– É um diagnóstico bastante completo, pois elas identificam, buscam conhecer sobre a peça e
saber das condições de conservação. Estamos nessa fase que é muito importante porque para
se desenvolver qualquer projeto, primeiro precisamos conhecer a fundo esse acervo para
depois sim, se pensar em um projeto adequado – disse.

Adriano ainda detalha a realidade atual e fala do significado dos museus para suas comunidades.

– Aqui é um espaço. Um museu meio “informal”, em que as peças estão reunidas, mas falta o
trabalho museográfico, falta a proposta educativa com o intuito de que as pessoas têm que
visitar. “O sentido maior dos museus é as pessoas sentirem que o mesmo é parte de sua
história. Se apropriarem. Visitarem, principalmente os valencianos”. (Novaes)

AGENDAMENTO

Fechado por falta de recursos, a instituição tem dificuldades para ter um funcionário permanentemente e colocar o espaço em condições de visitação. Mas para os interessados, turistas, populares, estudantes e escolas, é possível visitar o museu que não está aberto em horário regular. A visita acontece sempre de segunda a sexta-feira e pode ser agendada pelos telefones (24) 2452-6383 às terças e quintas ou pelo WhatApp (24) 99951- 2879 com Adriano Novaes.

HISTÓRIA DAS SANTAS CASAS

Segundo consta nos anais portugueses, a primeira Santa Casa surgiu em Lisboa em 1498, segundo vontade de Dona Leonor que ficou viúva de Dom João II. Acredita-se que a mesma foi
a primeira ONG criada em todo o mundo. Posteriormente, após serem criadas novas instituições e por estímulo do Rei Manuel I de Portugal houve a criação de Santas Casas por todo o reino, chegando a ter unidades em vários continentes. A atuação das instituições apresentou duas fases: a primeira tinha natureza caritativa (meados do século XVIII até 1837) e a segunda, com viés filantrópico (1838 a 1940). Fonte: Wikipedia.

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